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Reunir fotografias que revelassem os diversos aspectos das relações familiares entre os afrodescendentes da comunidade onde cresceu, no interior de São Joaquim/SC, foi o ponto de partida para a criação do projeto Viés das Raízes Negras: Memórias da comunidade afrodescendente de São Sebastião da Várzea de Cassiano Suhre da Rosa.

Existem poucos registros sobre as características culturais e ramificações dos percursos das famílias de matriz africana nas populações de cidades interioranas de Santa Catarina, sobretudo na região do Planalto Serrano. Reflexo direto do processo de colonização e de escravidão no Brasil, principalmente na região Sul − onde a história oficial se construiu em torno da imigração europeia, dos seus costumes, sobrenomes e núcleos familiares. As populações de origens negras ou indígenas foram sistematicamente anuladas, desvalorizadas e apagadas na construção de uma identidade e estrutura social brasileira, mesmo sendo responsáveis em grande parte pela cultura e o desenvolvimento econômico do Estado.

 

Talvez por essa razão, pouco ou nada se sabe, por hora, sobre as origens da Várzea (como é chamada pelos joaquinenses) ou de que regiões do continente africano se originaram seus primeiros habitantes. Contudo, um primeiro passo está sendo dado por Cassiano para que as gerações futuras conheçam sua história e para que os seus antepassados não sejam mais vítimas do esquecimento.

Através de uma busca identitária e do desejo de potencializar o seu processo de autorreconhecimento, pesquisou e coletou fotografias antigas das pessoas que ali vivem, em uma tentativa de reconstruir sua própria história e preencher as lacunas da memória afetiva da comunidade. Essa é uma história que vem sendo costurada apenas através de relatos das pessoas mais velhas, de lembranças guardadas na memória de cada um. A fotografia aqui, serviu como instrumento documental, compreendida como a materialização potente da lembrança e possui uma importante função social, de testemunhar as transformações pessoais, sociais e do lugar.

Mas, apesar dessa invisibilidade − e por causa dela − os povos de matriz africana que se concentram em localidades como a Várzea, expandiram a ideia de família em direção ao coletivo, criando um conceito de comunidade, compartilhando entre si conhecimentos ancestrais, tradições, histórias, ritos e culinárias. É uma questão de sobrevivência e manutenção de suas memórias afetivas e é possível estabelecer uma relação com a filosofia africana Ubuntu*, que trata da importância das alianças e do relacionamento das pessoas, umas com as outras. “São existências conectadas entre si, é a experiência coletiva como condição essencial para a existência humana”.

As imagens resgatadas por Cassiano, como as cenas familiares e do cotidiano, refletem a dimensão da coletividade produzida ao longo dos anos e a importância dessas famílias afrodescendentes como parte fundamental na história da região serrana. Por isso, essa exposição torna-se relevante para além da preservação da memória. Fala sobre os espaços de comunhão a partir das imagens e das narrativas produzidas por pessoas que neles habitam e valorizam o sentimento tão importante de pertencimento social e familiar. E o Centro Comunitário de São Sebastião da Várzea, espaço que irá abrigar a exposição física do projeto, é um desses locais de consolidação da memória, um espaço de convivência, de resistência social e cultural.

“Há um anseio coletivo subjetivo em cada celebração da comunidade de São Sebastião da Várzea, para que as ramificações familiares que se desenvolveram ao passar dos anos, possam se reconectar entre as gerações e se preservar através do exercício da memória”. 

 

*Ubuntu: Ser-com-os-outros

https://www.geledes.org.br/ubuntu-filosofia-africana-que-nutre-o-conceito-de-humanidade-em-sua-essencia/

Lela Martorano 
Curadora

Realização:

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